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GRAVIDEZ
NA ADOLESCÊNCIA
Todo ser humano, no decorrer da vida, passa por transformações,
independente da idade: a criança, o jovem, o adulto e o velho, cada um
a seu modo, experimentam mudanças. No entanto, existem certas épocas
nas quais as modificações que ocorrem em nossos corpos e mentes, nos
nossos relacionamentos e compromissos, são particularmente importantes
e rápidas. Nestas, certamente situam-se a gravidez e a adolescência.
A experiência da
gravidez, por exemplo, afeta de modo profundo e completo a vida das
mulheres que a vivenciam, modificando-a definitivamente. A fase da
adolescência, entre os 10 e 19 anos, é também um momento especial.
Hoje, os meninos e
meninas entram na adolescência cada vez mais cedo. O início da ejaculação
e da menstruação indicam que eles estão começando a sua vida fértil,
isto é, que chegaram àquela fase da vida em que são capazes de
procriar.
As transformações físicas
não são as únicas que enfrentam. Suas mentes também passam por
grandes alterações. Nem sempre nos damos conta do quanto sua inteligência
evolui. Entretanto, essa é uma fase de dubiedades: num momento, o jovem
pode tornar-se mais sonhador ou independente e arrojado, passando a
querer experimentar novas possibilidades e vivências; noutro, fica
encabulado e retraído, sensível ou agressivo Ao mesmo tempo em
que se sente frágil e inseguro, pode achar que não precisa de ninguém;
ao mesmo tempo em que se vê retraído, acha-se capaz de tudo; apesar de
temer o mundo, acredita que nada pode lhe acontecer.. Muitos começam a
trabalhar e a experimentar, cedo, um início de independência material.
Outros, trabalhando ou não, procuram, através dos estudos, um
encaminhamento para a vida profissional.
Ao adquirir
personalidade própria, o jovem geralmente se distancia da família,
procurando maior autonomia. Com isso, sua vida social se modifica: passa
a preferir a companhia de outros adolescentes, recusando a dos pais e
irmãos. Os amigos de mesma idade passam a ser as pessoas mais
importantes. Começa a vestir-se de acordo com o figurino do grupo, a
falar a sua linguagem, a freqüentar lugares diferentes, a chegar mais
tarde em casa.
A adolescência quase
nunca é vivenciada com simplicidade e tranqüilidade. Freqüentemente,
é um momento instável. Os sentimentos do jovem não são mais como os
da criança, tampouco como os do adulto.
Muitas vezes, os
adolescentes não conversam com os adultos porque acham que todos sabem
o que estão pensando; outras, falam muito e reclamam que ninguém lhes
escuta. Por tudo isso, a adolescência é um dos momentos mais especiais
na evolução de cada pessoa e, portanto, exige atenção muito
especial.
Quando a gravidez
chega cedo
"A
primeira vez a gente nunca esquece. Mas para muitas adolescentes nem
sempre essa lembrança está associada a uma saudável nostalgia.
Divididos entre os hormônios e a responsabilidade, os adolescentes
iniciam a atividade sexual cada vez mais cedo e aumentam a incidência
da gravidez precoce, das doenças, dos abortos, dos desencontros
amorosos".
Essas palavras iniciam uma recente reportagem sobre o nosso tema.
Podemos facilmente imaginar como deve ser difícil enfrentar a adolescência
e a gravidez, quando ocorrem ao mesmo tempo: como se complica a vida de
uma jovem que descobre estar grávida justamente quando passa por todas
as transformações dessa fase; as preocupações de um jovem
adolescente ao descobrir que vai se tornar pai.
Grave é pensar que essas
situações estão, hoje em dia, ocorrendo cada vez mais tanto no Brasil
como no mundo. Pesquisas divulgadas pelo Ministério da Saúde e pela Agência
Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional – USAID mostram
dados alarmantes sobre o comportamento dos adolescentes: no tocante à
precocidade das relações sexuais, entre 1986 e 1996 dobrou o número
de jovens que teve sua primeira relação sexual entre os 15 e os 19
anos; enquanto o número médio de filhos de mulheres adultas vem caindo
há décadas, a taxa de fecundidade entre adolescentes está em
crescimento constante; anualmente, 14 milhões de adolescentes no mundo
tornam-se mães e 10% dos abortos realizados são praticados por
mulheres entre 15 e 19 anos.
No Brasil, o parto é a
primeira causa de internação de adolescentes no sistema público de saúde.
Em 1996, 14% das jovens com menos de 15 anos já tinham pelo menos um
filho; e de cada 10 mulheres que hoje têm filhos, duas são
adolescentes.
Sabemos que uma jovem pode muito bem tornar-se mãe, se assim o quiser.
As adolescentes mais velhas têm condições físicas para isto. A questão
é diferente quando a adolescente é muito jovem, com idade abaixo dos
16 anos. Neste caso, podem ocorrer complicações tanto para ela como
para o bebê, porque seu próprio corpo ainda está em processo de formação.
Por isso - e pelas condições sociais, econômicas, psicológicas e de
formação moral vinculadas ao fato -, a gravidez da adolescente é
considerada como gestação de alto risco.
No passado, as brasileiras casavam-se e tornavam-se mães muito cedo.
Possivelmente, as avós ou bisavós de muitos de nós tiveram seus
primeiros filhos com 13 ou 14 anos de idade. As mulheres casavam-se
jovens, permaneciam exclusivamente no ambiente doméstico, freqüentavam
pouco a escola, não tinham recursos, meios nem mentalidade para
planejar sua vida reprodutiva. Não havia métodos confiáveis para
evitar a gravidez e, geralmente, isso nem era cogitado. Vivia-se menos,
havia muitas doenças "incuráveis", morria-se muito de parto
e de complicações da gravidez e a própria estrutura familiar era
diferente.
Atualmente, tudo mudou.
No entanto, embora quase todos conheçam algum método anticoncepcional,
alterações nos padrões de comportamento sexual estão contribuindo
para o aumento dos casos de gravidez na adolescência - e esta não é
uma questão simples de ser encarada.
Repercussões da gravidez na adolescência
A adolescência caracteriza-se por ser um período de descoberta do
mundo, dos grupos de amigos, de uma vida social mais ampla. Assim, a
gravidez pode vir a interromper, na adolescente, esse processo de
desenvolvimento próprio da idade, fazendo-a assumir responsabilidades e
papéis de adulta antes da hora, já que dentro em pouco se verá
obrigada a dedicar-se aos cuidados maternos. O prejuízo é duplo: nem
adolescente plena, nem adulta inteiramente capaz. A adolescência é
também uma fase em que a personalidade da jovem está se formando e,
por isso mesmo, é naturalmente instável. Se é fundamental que a mãe
seja uma referência para a formação da personalidade de seu bebê, os
transtornos psíquicos da mãe poderão vir a afetar a criança.
Ao engravidar, a jovem tem de
enfrentar, paralelamente, tanto os processos de transformação da
adolescência como os da gestação. Isto, nesta fase, representa uma
sobrecarga de esforços físicos e psicológicos tão grande que para
ser bem suportada necessitaria apoiar-se num claro desejo de tornar-se mãe.
Porém, geralmente não é o que acontece: as jovens se assustam e
angustiam-se ao constatar que lhes aconteceu algo imprevisto e
indesejado. Só este fato torna necessário que seja alvo de cuidados
materiais e médicos apropriados, de solidariedade humana e amparo
afetivo especiais. A questão é que, na maioria dos casos, essas condições
também não existem.
Muitas vezes, a dificuldade
de contar o fato para a família ou até mesmo constatar a gravidez faz
com que as adolescentes iniciem tardiamente o pré-natal – o que
possibilita a ocorrência de complicações e aumento do risco de terem
bebês prematuros e de baixo peso. Além disso, não é raro acontecer,
em seqüência, uma segunda gravidez indesejada na jovem mãe. Daí a
importância adicional do pré-natal como fonte segura de orientação.
Viver ao mesmo tempo a própria
adolescência, cuidar da gestação e, mais tarde, do bebê, não é
tarefa fácil. E a vida torna-se ainda mais difícil para a adolescente
grávida que estuda e trabalha. Igualmente, essa situação não difere
com relação ao jovem adolescente que se torna pai: ele se vê
envolvido na dupla tarefa de lidar com as transformações próprias da
adolescência e as da paternidade, que requerem trabalho, estudo, educação
do filho e cuidados com a esposa ou companheira.
Por que tem crescido a gravidez na adolescência?
Mas por que, afinal, apesar de todas estas dificuldades muitas
adolescentes engravidam?
Não é fácil responder a esta pergunta. Antigamente, podia-se pensar
que era por falta de informação. Mas hoje todos sabem que existem
muitos métodos para evitar a gravidez. Eles são acessíveis, baratos e
podem ser ampla e facilmente utilizados pelos jovens.
De fato, os adolescentes têm
o acesso facilitado às pílulas anticoncepcionais, ao diafragma, à
camisinha.. Os meios de comunicação e as escolas fazem freqüentes
campanhas de esclarecimento. Os serviços de saúde estão à disposição
para prestar informações. No entanto, as estatísticas brasileiras
demonstram que apenas 14% das jovens de 15 a 19 anos utilizam métodos
contraceptivos; e somente 7,9% delas, a pílula.
O problema é que, muitas
vezes, os jovens pensam ou dizem saber tudo sobre sexo, e não sabem.
Pode ser que não tenham informações corretas ou que não saibam como
aplicá-las às suas vidas, ou que seus pais achem que eles já estão
suficientemente esclarecidos e não mais precisam de informação ou
conversa sobre um assunto que ainda traz certo constrangimento. E,
principalmente, pode ser que os jovens, embora saibam das coisas,
acreditem que com eles nada acontecerá.
"Nunca pensei
que isso fosse acontecer comigo, embora soubesse do risco que
corria, ao não usar a camisinha
todas as vezes que mantinha relação", dizem, surpresos,
muitos adolescentes ao descobrirem a gravidez. Isto revela uma característica
fundamental da mentalidade do adolescente: achar que as coisas só
ocorrem com os outros. O resultado desse comportamento de risco é que,
dentre todas as mulheres que se tornam mães, 20% delas são
adolescentes!
Outra explicação aponta que os jovens são muito imediatistas. Ante a
possibilidade de fazer sexo, sobretudo quando esperaram muito por isso,
não pensam nas conseqüências: valem-se do desejo imediato, ignorando
os resultados.
Nem toda gravidez precoce e não planejada é uma história sem final
feliz. Mas, infelizmente, tudo acabar bem é uma exceção à regra. Há
muitos casos em que a menina, para atrair sobre si a atenção ou o
afeto da família e dos amigos, ou para segurar o namorado, engravida.
Ora, as carências afetivas devem ser consideradas seriamente, e com
certeza uma gravidez prematura não é a melhor solução. Além disso,
filho não tem o poder de segurar namorado, nem de produzir casamentos
felizes e duradouros. Se o relacionamento do casal estiver ruim,
dificilmente um bebê facilitará as coisas, pelo contrário.
Ainda existem outros
tipos de explicação. Considera-se, por exemplo, que muitas vezes uma
jovem desamparada, que não desfrute de uma condição de vida digna,
pode pensar que tornando-se mãe se libertará da miséria e obterá o
respeito das pessoas. Esta idéia baseia-se na crença de que a
sociedade tende a valorizar a figura da mãe e a ter maior consideração
pelas gestantes. Mesmo que exista um pouco de verdade nisto, logo a
jovem se verá em situação ainda pior: terá de trabalhar e cuidar do
filho em condições adversas, e a maternidade, ao invés de premiá-la
com os benefícios esperados, só lhe trará mais dificuldades e
responsabilidades.
Finalmente, é preciso
dizer que significativo número da gravidez de adolescentes decorre do
uso da violência, força ou constrangimento. Em geral, resulta de
estupro - a realização de ato sexual à força - ou de incesto, isto
é, a relação com familiar próximo, como o pai, tio ou irmão. Nas
situações de violência, o trauma psicológico geralmente é intenso.
Mais do que ninguém, elas precisam de amparo e proteção especiais.
Para essas situações de risco, amparadas explicitamente pela lei, é
permitida a realização do aborto legal, com atendimento pela rede do
Sistema Único de Saúde.
Os serviços de saúde
têm condições de informar, orientar e prestar assistência à
adolescente grávida, através de um pré-natal diferenciado, já que
sua gravidez é considerada como de alto risco, sobretudo para as jovens
com menos de 16 anos.
Orientação sexual e afetiva é o remédio
Não vale a pena engravidar por distração ou ignorância. As informações
técnicas são importantes e devem continuar a ser oferecidas às crianças
que estão entrando na adolescência, e aos jovens. Os programas de
educação sexual transmitidos pelas escolas vêm cumprindo papel
fundamental, já que permitem o diálogo e a circulação de informações
sobre a sexualidade. Os meios de comunicação e as campanhas publicitárias
também têm abordado com freqüência esse assunto, particularmente
visando a prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, como a
AIDS.
É função dos serviços
de saúde implantar programas especiais à disposição dos jovens, para
informá-los e cuidar deles, se necessário. Os adolescentes não
precisam sentir vergonha. Além de ser um direito, os profissionais de
saúde têm prazer em recebê-los e, através dos serviços oferecidos,
possibilitar-lhes informação a respeito dos vários métodos
anticoncepcionais existentes. É bom lembrar que, desde a primeira relação,
será necessário se proteger. Quem transa sem os cuidados devidos, pode
engravidar.
Mas, atenção: dar
apenas informações técnicas aos jovens não basta. É muito
importante que também sejam orientados em casa, na família. É
essencial que possam fazer perguntas, conversar com amigos e parentes
mais velhos e se aconselhar quanto à escolha do melhor método
anticonceptivo. O importante é que falem e sejam ouvidos. Esse canal de
comunicação precisa ser criado e mantido, tanto com a filha, desde sua
primeira menstruação, quanto com o filho.
A superação das
dificuldades de comunicação e diálogo entre os pais e os filhos pode
ajudar em muito a diminuir a ocorrência da gravidez indesejada entre
adolescentes. Os pais precisam esforçar-se para deixar de lado o medo
de ser taxados como caretas, autoritários, ou de serem acusados de
estar invadindo a vida pessoal de seus filhos. Conversando e
orientando-os não apenas sobre reprodução e sexualidade humana mas
também sobre valores como afeto, amizade, amor, intimidade e respeito
ao corpo e à vida, permitirão que se sintam mais preparados para
assumir as alegrias e responsabilidades inerentes à vida sexual.
ATIVIDADES SUGERIDAS
I
– Antes da sessão de vídeo -
·
O coordenador
das atividades (professor, agente de saúde ou educador) deve reunir
grupos de jovens da comunidade e programar, para eles, uma sessão do vídeo
Gravidez na Adolescência.
Antes da sessão, poderá despertar o interesse de todos fazendo as
seguintes perguntas:
·
Vocês
conhecem muitos jovens que já têm filho?
·
O que pensam
da gravidez na adolescência?
·
Por que
tantas meninas têm ficado grávidas?
·
Que métodos
conhecem para evitar a gravidez?
·
Quais
funcionam e quais não funcionam? Por quê?
·
Como fazer
para diminuir o risco de gravidez indesejada entre os jovens?
II
– Após a sessão de vídeo –
·
O coordenador
retoma a discussão anterior e mostra os aspectos não mencionados. Em
vista das informações trazidas pelo Programa Viva Legal, corrige os
erros e imprecisões apresentados.
·
Pode também
programar com as turmas de jovens maneiras de disseminar as informações
sobre reprodução e métodos anticoncepcionais, visando diminuir o
risco de gravidez indesejada entre os adolescentes da comunidade.
·
Pode também
programar novas sessões de vídeo sobre temas correlatos, como reprodução
e métodos anticoncepcionais, visando aprofundar a discussão sobre
assuntos inter-relacionados.
·
Viva com
prazer. Viva Legal!
Dr.
Alberto Olavo Advincula Reis (USP)
Dra. Maria Aparecida Andres Ribeiro (UFMG) |